Desalento

Se tornou uma rotina incômoda acordar antes das sete horas, embora o costume não a abandonasse, mas este era mais que um dia comum, não contara a ninguém, pois era tomada por um medo incontrolável de ser julgada, embora tivesse honrarias suficientes para que ninguém duvidasse de sua índole.

Ela olhou ao redor, e o silêncio a observou de um lugar pouco iluminado, e por mais que gostasse de acreditar que aquele dia levantaria o seu ânimo, como seria possível? Valentina inflou o peito e soltou o ar lentamente como fizera inúmeras vezes a pedido dos médicos.

Laura prometeu passar para vê-la mais tarde, e essa promessa não seria esquecida, de suas visitas, Valentina extraía o máximo, as passagens de Laura se tornaram mais raras a cada ano, após o casamento ela se distraiu com sua filha e o marido, e suas responsabilidades aumentaram com o tardio desejo de cursar uma faculdade, que Laura manobrou entre os cuidados com a casa, estudos e vida amorosa. Valentina se orgulha de Laura, mas se ressente ao poder contar nos dedos as suas visitas.

Ela decide levantar, melhor começar o preparo de tudo antes que fique muito tarde e alguém resolva atrapalhar os seus planos; Valentina puxa o edredom de estampa florida, um presente aconchegante da mãe de Pedro, ela toca o chão com os pés, está gelado, esqueceu de trazer o chinelo da sala para o quarto, decide ir buscá-lo, não precisa de outra crise de pneumonia, pois não sabe quando será a última, ao todo foram cinco, e a partir da segunda o médico lhe avisou que a gripe estava sendo bondosa, e que na próxima não seria assim tão generosa, embora ela se questione se não há motivos para se entregar de uma vez.

A mulher firma os pés e se coloca ereta, embora não esteja tão esguia, os cabelos caem sobre os ombros, queria tê-los pintado da última vez que Laura veio visitá-la, hoje estariam melhores, mas quem tem tempo para isso? Não a Laura.

Valentina caminha com passos vagarosos até a sala, está vazia, os móveis são antigos e antiquados, e ela não se importa, pois gosta dessa atmosfera, deixa as lembranças vagarem livres. Se isso a faz bem? Possivelmente não, mas como negar à pequena parte de seu cérebro que ainda processa memórias.

Ela encontra o par de chinelo felpudo sob o sofá, está parado paralelo entre a madeira e o tapete, ela tenta se lembrar como o esqueceu ali na noite passada, imagina que talvez estivesse muito ansiosa para dormir. Valentina calça o par, e seus movimentos são lentos e doentes, causando uma vontade aguda de dizer “Vamos, calce mais rápido, Laura chegará logo!”.

Chegou a hora do café, o médico disse que é a refeição mais importante do dia, ela vai até a cozinha e coloca a chaleira sobre o fogo, deixa a água borbulhar, enquanto o apito não se faz presente ela busca em um armário lateral a caixa onde esconde seus remédios, Valentina se preocupa ao não encontrá-los, procura em outro canto e se culpa por não colocar em um lugar mais visível, sobre a pia, do lado da torneira, será fácil de ver, pensa ela. A chaleira apita, ela corre para tirá-la do fogo, o barulho incomoda sua dor de cabeça constante, como pode viver com tantos problemas? Ela se pergunta todos os dias se não é melhor acabar com tudo.

O café está quente em sua caneca, é um dos inúmeros costumes que têm, fazer café, em sua família quase ninguém gosta, Laura diz que é amargo e deixa um gosto ruim na boca, mas ela gosta com pouco açúcar e o bebe em goles curtos para não queimar a língua. Os remédios, se lembra, ela levanta, vasculha outro armário e os encontra, coloca eles sobre a mesa e começa a destacar um de cada, toma todos quase de uma vez com o próprio café, não sabe se isso é permitido, mas que médico ousaria lhe dizer o contrário?

Após comer meio pão, ela se ajeita e levanta, deixa a caixa de remédios sobre a pia, mas se lembra que deve guardá-los no armário para que ninguém mexa, e o faz assim.

Seu banho é longo, não por gostar de ficar tempo demasiado sob a água quente, mas por seus movimentos serem lentos e quase calculados, o braços não levantam muito além da cabeça, e seus joelhos não se dobram acima da cintura, por isso o sabonete corre como pedra sobre a sua silhueta flácida.

Pentear o cabelo é quase uma tarefa impossível, o couro cabeludo se queixa ao toque de sua escova, ela tenta ao máximo fazer um penteado bonito, e embora ela não repare, é possível ver o ligeiro desarranjo que o tempo causou em sua percepção do que é belo. Ela para por alguns segundos e fita o penteado diante do espelho oval, que sempre ficou estacionado próximo de sua cama defronte ao armário; julga estar ótimo, levanta um leve sorriso.

Ela se senta sobre a cama, sua escova ainda em mãos, queria poder se lembrar mais, mas sua memória ocupa uma parte cada vez menor em sua mente, acho que isso acontece com todo mundo, imagina crente que não é a única, pensar que existem pessoas passando pela mesma situação, ou piores do que ela a tranquiliza.

Valentina inclina a cabeça, não pode desmanchar o que fez, demorou muito para chegar naquele resultado, então precisa agir rápido, rituais existem para serem cumpridos, e aquilo não passava de um ritual. Ao levantar ela se depara com uma ligeira tontura, então paralisa, elas costumam passar quando ela foca num ponto no horizonte e firma as pernas.

O vestido estava na última porta do guarda-roupa, dentro de uma caixa, escondido atrás de diversas outras muito menos significantes, ela o tateia com certa dificuldade e o traz com os braços trêmulos até apoiá-lo sobre a cama, a tampa é retirada com cuidado como se fosse desmanchar, debaixo do papel de seda ela encontra um vestido de noiva todo rendado com mangas bufantes, numa cor amarelada muito distante do branco que costumava ser.

O espelho não é modesto em mostrar a cintura avantajada que já não se encaixa na silhueta do vestido, mas ela é insistente, aprendera isso com Pedro, ela passa uma perna, depois a outra e então sobe até o limite, pouco antes do quadril ele paralisa, ela puxa o tecido, mas ele parece estar pregado, contudo ela é insistente, precisa chegar ao máximo, ela puxa com toda sua força, o tecido cede, talvez ela nunca repare na fissura que se abrira nas costas, e isso não diminuirá o prazer de ver sua cintura rodeada por todo aquela cauda; por fim, ela tenta alcançar o zíper, mas um movimento desses não é fácil na sua idade, ela o puxa, mas ele não caminha mais que um centímetro, ela insiste, as lágrimas começam a rolar sobre as rugas que rodeiam seus olhos, ela se vê vencida, ele não fechará.

Cansada e com a respiração mais pesado que de costume, Valentina fita sua visão no espelho, há 50 anos se casou, há 5 não o vê mais deitado ao seu lado, e se lembrar disso a faz querer esquecer, ela gira o rosto e fita a cama, está tão cansada, como pôde ser tola o suficiente para acreditar que caberia no seu vestido de casamento, uma peça desenhada para seu corpo de moça, o que não pagaria para voltar para aquele tempo, e enquanto observa senta-se sobre a cama com seu volumoso vestido, em meio a tantos panos, detalhes e bordados ela se desmancha em lágrimas ao se lembrar do tempo de antes, quando ainda sabia discernir a felicidade desta metáfora cruel que é aguardar o fim.


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