No fim o que resta é incompreensão

Antônio chegou pela noite depois de duas horas no ensandecido trânsito de São Paulo, seus dedos procuraram a maçaneta e depois um espaço no sofá. Tinha se tornado um hábito, deixar descansar por alguns minutos sobre aquele sofá velho e confortável e, por um instante, aproveitar o silêncio e a monotonia, assim podia tentar, mesmo que em vão, esvaziar a mente e se concentrar no jantar.

Paulo chegava pelas 19h, não tinha o costume de se render logo na entrada, preferia guardar a mochila, e sair para passear com o Marrom, um Buldogue Francês com sérios problemas de respiração, a caminhada não durava muito, talvez trinta minutos, mas para ele aquele não era um dia comum.

A campainha soou próximo das 22h, Antônio olhou curioso por cima de seu notebook para a porta, então deu sete passos até agarrar a maçaneta e a puxar de uma só vez — Não está um pouco tarde? Amanhã levanto às 6h.

 — Não vou demorar, tenho tentado te dizer isso há algum tempo, mas eu sempre arranjo uma desculpa, saio pra passear com o Marrom ou vou à academia, tento não ficar pensando nisso o tempo todo e sinto que preciso falar.

 — Diga de uma vez, você não me surpreende mais.

 — O que quer dizer com isso? — ele amiudou os olhos e tentou não transparecer todo o nervosismo com que pressionava os dedos das mãos.

 — Paulo, são dez da noite, se você quer me dizer algo, diga.

 — Posso entrar pelo menos? Não faz sentido termos essa conversa comigo aqui parado na sua porta.

 — Claro, entre, na cozinha conseguimos conversar melhor.

 — Sua prima não está em casa?

 — Ela arranjou um namorado novo, está dormindo na casa dele a semana toda, até gosto do silêncio, eu chego e não há nada além de mim.

Os dois rodearam a bancada de granito já limpa do jantar, sobre a pia havia quatro pratos sujos, mas nenhum copo. Paulo seguiu o caminho das migalhas deixadas sobre a pedra até encontrar o olhar de Antônio.

 — Você convidou alguém para vir aqui?

 — Um pessoal do trabalho, você não conhece. Eles queriam experimentar minha comida, ficaram falando disso a semana toda, tive que convidá-los para vir em casa.

 — Não pensou em me chamar? — A voz desapontada de Paulo absteu-se em sua garganta.

 — Já conversamos sobre isso, eles não sabem sobre nós, não posso te apresentar para eles, não sei como será a reação deles, são preconceituosos.

 — Talvez precise de amigos que te aceitem melhor.

Antônio respirou profundamente como se contasse mentalmente.

 — Você tinha algo para me dizer, o que era?

 — O que você quer de mim? Eu não posso estar nisto, parece que estou enlouquecendo, no começo isso era divertido, mas agora sou a pessoa que nem sabe com quem você anda, não conhece sua família, e tem que se contentar com os dias que sua prima não está em casa para poder ter uma noite com você.

 — Eu disse que não estava pronto quando me conheceu.

 — Isso faz três anos e também me disse que logo estaria…

 — E o que você espera? Que eu leve você para um almoço em família? Apresente meus pais? Fale do seu trabalho, e como nos conhecemos? Pare de sonhar, não defina o que devo ou não fazer a partir do seu julgamento, você não sabe como seria.

 — É por isso que eu estou aqui, por você não querer saber como seria. Você não está pronto, e parece que nunca estará, eu vou embora está tarde, não é mesmo?

Paulo caminhou decidido para a porta, e pareceu desapontado quando Antônio não o impediu, a maçaneta girou, os olhares se cruzaram num último instante, mas já não era como se pudessem reverter, havia um sentimento amargo na boca, um tremor sutil nas mãos junto a respiração visceral. Ele deixou que a porta se fechasse, e a partir daquele instante ambos se esforçaram por orgulho ou incompreensão a não se falar, Paulo bloqueou as redes sociais, e Antônio ao perceber não deixou por menos. Nos corredores evitaram se encontrar, e uma vez ou duas Paulo se escondeu em algum vão para não ter de cumprimentá-lo, ainda doía, mas estava decidido a levar sua vida para o próximo afeto, e deixar em um recanto nublado o que sobrou. Ele não podia ceder mais, esse era o seu limite, e que decisão poderia tomar senão deixar para trás e prosseguir?


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